No dia em que decidi voar

by - abril 18, 2017

Ainda há relativamente pouco tempo tive uma experiência que sei que não vou conseguir esquecer. Não vou esquecer a sensação, o desconforto na barriga - qual nervosismo - o peito apertado por tentar recriar vezes e vezes sem conta na minha cabeça como seria a sensação. O mais perto que tive disso foi em sonhos (ou pesadelos) em que me vejo a cair de um prédio e a acordar atordoada. Não tem nada a ver. Não vou conseguir esquecer as mãos transpiradas, a roupa justa, a porta do avião a abrir, e pensar "é agora". Nesta fase tudo se dissipou. Tudo desapareceu, o medo, a ansiedade e quaisquer bichos na barriga. Mas ao mesmo tempo parecia ser uma mera espectadora da minha própria condição. Ia ser breve, alguns segundos, mas, naquele momento, pareceu que tudo se resumia a isso. E foi tremendamente assustador e brilhante. Tudo ao mesmo tempo. O turbilhão de sensações confundia-se com o barulho das turbinas.
Pernas para fora do avião. Estava sentada num avião com as pernas do lado de fora da porta - questiono-me se algum dia tive verdadeiramente medo de voar. 
Lembro-me de respirar fundo quando o instrutor fez a contagem, apertar as mãos ao que me prendia, como se de alguma maneira isso me protegesse de uma queda livre a 220km/h, e cair. Sei que me obriguei a olhar à volta, mas só depois de me lembrar de respirar. Estava a cair, a voar, chamem-lhe o que quiserem. 
Sei que tive uma sensação pura de liberdade, e, ao mesmo tempo, de impotência. Somos mesmo ínfimos, insignificantes. E isto pôs-me a pensar, mais uma vez, na forma como devemos levar o dia-a-dia e aligeirar as nossas vidas.
Adorava conseguir expressar tudo de uma forma mais realista, mas há coisas que só mesmo vividas. Por isso não adiem. Não sabemos o que o vento nos traz amanhã, mas proporciona-nos, garantidamente, uma experiência inesquecível.





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